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Capitulo I

Factos

Um cão tem em média 220 milhões de células olfactivas em comparação com o ser humano que possui apenas cerca de 5 milhões dessas mesmas células olfactivas, aliado a sua grande mobilidade em terrenos de difícil acesso, um cão de busca é uma “ferramenta” muito eficiente e rápida na detecção de vítimas soterradas após uma catástrofe natural, ou não.

Apenas 30% dos cães treinados atingem a operacionalidade conseguindo superar os mais variados desafios e cumprindo a sua função, marcando através do ladrar a presença de vítimas, por isso o treino para esta vertente deve de ser muito exigente no seu planeamento, e os critérios de aprovação muito rigorosos.

Em Portugal vive-se um momento muito confuso no que se refere aos cães de busca e resgate, existem as entidades oficiais que têm unidades cinotécnicas, PSP, GNR, Corpos de Bombeiros, e alguns ramos das forças armadas, depois temos algumas organizações não governamentais que detêm acordos com delegações de protecção civil municipais.

Mas a realidade é que a falta uma autoridade oficial que tome conta desta vertente de trabalho com cães, o que faz com que a actividade não evolua da melhor forma. Existem vários projectos e ideias mas por várias razões nunca chegam a ser concluídas.

Capitulo II

Formação teórico-prática

Como descrito atrás a falta de uma autoridade que tome conta desta vertente, torna impossível também, que haja formação certificada e reconhecida em Portugal, os melhores cursos e equipas de busca encontram-se no pais vizinho Espanha, que funcionam através dos governos regionais, apesar de não ter um grande conhecimento de causa, existem várias formações.

Eu mesmo estou a tirar a minha formação na UNED, Madrid “Investigacion de la educacion y adiestramento canino orientado a tareas de seguridad y asistencia”.

O meu conselho é, junte-se a um grupo dedicado a esta actividade e aprenda o que lhe é transmitido e tenha a sua formação na prática, leia artigos disponíveis na internet, troque experiencias e adquira literatura sobre o tema, e se puder e encontrar, faça formação teórica.

 

Capitulo III

A escolha do nosso cão.

Nem sempre é fácil olhar para uma ninhada de cães e escolher aquele que nos vai dar as melhores garantias de ser um verdadeiro cão de trabalho, eu acho que o trabalho que se faz com os cachorros depois da sua quarta semana de vida é mais importante que a genética dos seus antepassados. Claro que essa parte conta e deve ser levada em consideração quando se vai escolher o cachorro (doenças e personalidade).

Um cão de busca tem de ser de raça? Não, o que conta é o cão como individuo, o recorrer a cães de raça pura para trabalho deve-se há predisposição de certas raças e à sua genética.

Como pontos importantes o que devemos procurar num cão é o seu instinto de caça, mobilidade e personalidade.

Para testar o seu instinto de caça, devemos levar um churro, pano ou bola, e ver o seu interesse nesse brinquedo. Quanto maior melhor.

Para testar a sua mobilidade, basta a observação da forma como ele se move e transpõe alguns obstáculos simples. Quanto mais melhor.

Para testar a sua personalidade devemos observar o seu comportamento dentro da ninhada e se possível levar a cabo o teste de Campbell, que nos dará uma ideia de como pode ser a sua conduta como adulto. Procuramos o líder, que por norma são cães machos.

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·         Flapy em cachorro (Border Collie)

Quando escolhemos um Collie para este tipo de trabalho devemos ter em conta as características desta raça e suas limitações, os Collies por norma são cães muito sensíveis e por isso deveremos ter em conta o criador. Devemos escolher um criador que faça um trabalho de dessensibilização em várias vertentes (barulhos e mobilidade) e que promova o instinto de caça dos cachorros, um cachorro não reconhece o medo até cerca da décima segunda semana de vida, podendo ser trabalhado desde a quarta semana de vida, e se o criador fizer um bom trabalho teremos a nossa vida um pouco mais facilitada. Caso não tenhamos o cuidado de escolher o criador, teremos muito pouco tempo até o nosso cachorro começar a desenvolver o medo. Claro que podemos receber um cão sem este trabalho e depois com o treino desenvolver e cuidar estas vertentes.

É muito importante que os criadores de raças de cães de trabalho, onde se inclui os Collies, que o façam em todas as suas ninhadas.

 

 

Capitulo IV

Equipamento pessoal e de treino.

O equipamento de protecção individual é essencial para a nossa protecção e para podermos treinar e desempenhar a nossa função.

Existem inúmeras marcas e tipos de material por isso escolha conforme o seu poder de compra ou gosto pela qualidade e cores, se estiver dentro de um grupo decerto que já haverá um modelo de material a adquirir.

Deixo-vos uma lista, a escolha é vossa:

                    

·         Eu, jornadas de trabalho Ortigosa 2010

O que é essencial para mim? Tudo, porque cada equipamento dá-me conforto e confiança para desempenhar as minhas funções seja como guia ou como de auxiliar.

Para o treino do cão, vamos utilizar objectos que, normalmente quem tem um cão já possui.

Individual a cada cão, trela e coleira.

Nota, num Collie raramente vamos precisar de usar coleiras estranguladoras ou outras, bastando usar uma coleira simples mas resistente a puxões, porque é um trabalho que envolve muita motivação, a trela a usar deve ser de couro porque por norma eles não reagem bem a trelas de corrente pelo seu peso e barulho.

Brinquedos:

                 

Existem em várias formas e tamanhos, use aquilo que motive mais o seu cão, porque isso vai facilitar o nosso trabalho.

Nota, num collie deveremos ter em atenção que a mordida pode ser fraca devido a abertura da boca e devemos usar brinquedos menos volumosos.

Tenha sempre presente num treino ou intervenção, um kit de primeiros socorros porque os acidentes acontecem em especial em locais com elementos soltos, ferros, madeiras, vidros, etc.

                   

·         Campo de escombros em Chelas

Locais como estes, por exemplo.

 

Capitulo V

Figurante/Auxiliar

·         Mário a fazer de auxiliar para o Flapy (Border Collie)

Grande parte dos guias caninos que se iniciam nesta actividade fazem-no de uma forma menos correcta, e eu não fugi a essa regra, quando me iniciei na busca e salvamento já tinha o meu cão

Eu hoje, após alguns anos nesta actividade, posso-vos dizer que o mais correcto é um futuro guia começar como figurante/auxiliar, porque essa “formação” vai-lhe dar conhecimentos e experiencia para ser um melhor guia, como já referi no capítulo II, existem varias formas de pertencer a uma equipa cinotécnica, tudo vai depender da vossa situação pessoal e profissional.

 

O figurante/auxiliar é a “peça” mais importante no treino de busca e salvamento, sendo ele que molda o carácter do animal, e potencializa o instinto do mesmo, sabendo ouvir as directrizes do guia, podendo na recompensa fazer com que a motivação do cão suba, assim podendo pedir mais ao cão.

Ouvir o guia também se torna importante na altura de corrigir erros que o cão esteja a cometer, sendo que nunca deverá fazer nada sem ser por indicação do guia.

Este papel deve ser desempenhado pelo maior número de pessoas possíveis na formação de um cão.

 

Características essências para um figurante/auxiliar:

 ·         Boa forma física

·         Aptidão psicológica

·         Desenvoltura motriz

·         Honestidade e humildade

·         Ética de trabalho

·         Estar seguro de si mesmo

·         Conhecedor do comportamento canino

·         Ser paciente

·         Ter vocação

·         Gosto por trabalhar com qualquer cão

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Defeitos de um figurante/auxiliar

 ·         Falta de experiencia

·         Incapacidade de ler o comportamento do cão

·         Falta de forma física

·         Falta de reflexos

·         Mau tempo de recompensa

·         Actuação com excesso de confiança

·         Não saber as regras básicas de ética

·         Não saber distinguir os instintos de presa com os de defesa

·         Incomodar-se em actuar em frente a outras pessoas

·         Diferenciar os cães e recusar trabalhar

·         Demonstrar medo

 

 O figurante deve considerar no seu trabalho as seguintes possibilidades, não temer sujar-se, pois em certas ocasiões vai ter de se estender no chão ou molhar-se e aceitar a possibilidade de uma espera longa e os possíveis desconfortos de uma posição chata que lhe será pedida, insectos presentes no local, necessidades fisiológicas entre outras.

O figurante/auxiliar é a base do treino de busca e salvamento, e sendo a base precisamos de uma base sólida, para que o resultado seja bom e eficaz, deveremos sempre ter a preocupação de ter novos figurantes/auxiliares presentes para os treinos mas sendo eles a base da formação dos cães de uma unidade de busca deveremos passar sempre o máximo de informação e incentivar a melhor forma de recompensar o cão, para que a sua motivação em momento algum baixe, ficando com um problema para resolver.

É fundamental que quando não temos a certeza de conseguir cumprir com o que o guia nos pede devemos ser honestos e dizer que não o conseguimos fazer.

É obvio que a experiencia, só pode ser adquirida através de treino, mas devemos tentar não falhar, porque podemos colocar em causa todo o treino de um cão.

 

Capitulo VI

 

Guia canino

·         Eu e Flapy (Border Collie) jornadas de trabalho Portalegre 2011

 

 

Chegar ao momento em que um binómio atinge a operacionalidade, é um longo e árduo caminho, são várias as etapas que temos de ultrapassar e por vezes basta um pequeno erro para termos de regredir no treino e deixar essa meta mais longe, para facilitar esse caminho os guias devem ser pessoas com certas características:

 

·         Capacidade de planeamento

·         Espírito de grupo forte

·         Responsabilidade e ética

·         Afecto com o animal

·         Capacidade de comunicação

·         Espírito de sacrifício

·         Saber sobre comportamento canino

·         Saber o básico sobre morfologia canina

·         Iniciativa

·         Capacidade de improviso

 

O guia canino é sempre o maior responsável pelo bem-estar e segurança do seu cão,

Ele mais do que ninguém sabe o que o seu cão sente, sabe “ler” o seu cão e o que precisa para reverter de imediato uma descida de motivação ou mesmo refrear a uma excessiva motivação.

 

Não quero de deixar referir que um guia canino quando se propõe a treinar um cão de busca tem de ter a grande consciência do verdadeiro valor do seu cão e não ter nunca a tentação de colocar o seu cão operacional sem que ele esteja realmente pronto, o meu conselho face ao panorama de falta de certificações validas em Portugal devemos ou recorrer a provas no estrangeiro ou colocar esse decisão no chefe da nossa equipa, que no meu ver deverá recorrer a testes periódicos e avaliados por guias experientes mas que não pertençam a sua equipa.

Como deve um guia canino planear o treino do seu cão?

Existem vários métodos de treino para esta vertente, a que deve escolher deve ser de acordo com o seu cão, pois o plano de treinos deverá ser individual para cada cão.

Deixo-lhes a pirâmide, que sigo para o treino dos cães que estão sobre a minha supervisão, este é aquele que sigo para todos os meus cães, no caminho da operacionalidade, sendo que os tipos de exercícios são quase sempre diferentes, estes “degraus” são essenciais para os cães na minha perspectiva.

Que terão de ser rigorosamente cumpridos e onde só passam a fase seguinte quando tenho a certeza que eles realmente aprenderam essa fase anterior.

                   

Um bom guia sabe que para ter um bom cão e que este seja equilibrado todos estes passos ou outros, pertença de outros métodos são bastante rigorosos e que por vezes é necessário retroceder no treino para alguma correcção necessária, e que apesar de uma destas fases estar aprendidas não a podemos deixar de fazer periodicamente para que o cão mantenha a aprendizagem desse passo na sua vida. E que as suas bases sejam sólidas como cão de trabalho.

Capitulo VII

O Cão

Sendo que atrás já falei da escolha do cão aquando de uma ninhada, deixo aqui três características que considero importantes num cão adulto que esteja a ser treinado para busca e salvamento, independência, motivação e uma boa ligação emocional.

                       

·         Eu a fazer de auxiliar ao Gui (Pastor Belga)

A independência é uma parte que nós podemos controlar e treinar para que o cão seja completamente autónomo e que consiga resolver os seus problemas sem necessitar da nossa ajuda, por isso quando planeio os treinos faço-o de forma a deixa-los pensar.

A motivação é a parte que é instintiva do cão através do seu instinto de caça e presa, temos de ter sempre em atenção que este instinto é saturável, e desta forma não podemos abusar dele sob pena de saturarmos o cão e que a sua motivação baixe, mas também não podemos recompensar pouco pois irá fazer também com que a sua motivação baixe, e um cão que não esteja motivado não irá trabalhar na sua melhor forma, por isso o equilíbrio é a palavra-chave nesta parte do treino.

A ligação emocional que um cão desenvolve com o seu guia é fundamental para o sucesso do binómio mas o cão terá sempre de ver e assumir o guia como o seu Alfa, esta ligação será fundamental para que em caso de necessidade de ajuda ao cão para resolver algum conflito é no guia que o cão acredita e aceita a liderança, de forma a ultrapassar esse conflito, mas atenção não podemos de forma alguma abusar destas e outras ajudas senão o cão ficará dependente e deixará de ser independente pondo assim em causa a sua operacionalidade.

                        

·         Jornadas de trabalho Loulé 2011, eu e Bull (Border Collie) a trabalho.

Quando estamos a treinar cães para esta actividade temos de ter no nosso pensamento que nem todos os cães treinados conseguiram atingir a operacionalidade, e como tal, no caso da minha unidade temos de ser capazes de abrir mão de um companheiro de muitas aventuras, e conseguir arranjar um lar que o possa acolher como companheiro, no caso de o cão ser nosso temos de ter o cuidado redobrado pois não será nunca fácil abrir mão de um amigo e companheiro, e senão tivermos hipótese de termos mais cães, podemos chegar a uma situação difícil.

Mas não devemos ter ilusões pois não podemos fantasiar com uma operacionalidade que acarreta a responsabilidade de salvar vidas, testem os cães e sejam sinceros pois não só se estão a enganar a vocês como a pôr em risco a vida de quem precisa de socorro.

Ter um cão operacional em busca e salvamento, é uma longa e dura caminhada, e nem sempre temos as ajudas necessárias para realizar esse desejo, particularmente para quem equaciona trabalhar com Collies, porque apesar de todas as suas boas características vejo que ao longo dos tempos eles, tem perdido muita “bravura” da sua genética, se eles são capazes de desempenhar esta tarefa estou plenamente convicto que sim, mas é preciso muito cuidado pois são cães muito sensíveis a vários medos, e em Portugal precisamos de criadores de Collies que entendam que estão a criar uma raça que sempre foi exclusivamente de trabalho, e que puxem por eles para termos mais e melhores Collies na vertente de trabalho, e que os dirigentes dos clubes que tutelam a raça como o Collie Clube de Portugal, o Clube de pastores britânicos e o Clube Português de Canicultura, façam mais eventos práticos que promovam e protejam a raça, eu tenho um collie que provem de linhagens de beleza e trabalha muito bem, mas foi desde dos 2 meses definido que esse seria o seu futuro, mas sei que seria mais fácil o seu treino, se o seu passado não lhe tivesse transmitido alguns defeitos.

Acima de tudo quem está a trabalhar nesta área tem de encontrar um equilíbrio em tudo, no treino do cão, no seu próprio treino, e saber que tem de se divertir e trabalhar muito seriamente, pois estão vidas em jogo.

Se eu apoio os Collies em busca e salvamento, SIM, o meu próximo cão será decerto mais um border collie porque, pela sua entrega ao trabalho, pela sua vontade de agradar, pela sua capacidade de aprendizagem, pela sua grande mobilidade e destreza e pelo seu carácter.

                       

·         Alguns dos Collies que conheço e o meu grande Yorkshire

Agradecimentos

Não podia deixar passar esta oportunidade em claro, sem agradecer a algumas pessoas que muito me ajudaram e ajudam no meu percurso como treinador canino.

À Ana Pires, por ter escolhido o meu Flapy e ter me ensinado muita coisa no mundo da canicultura de beleza, ao Daniel Xavier, meu colega que esta sempre disposto a partilhar informação sobre qualquer vertente canina, ao Sr. Caldeira do Clube Canino Amigos do Alão pelas lições de Agility, e ao Frederico António, que tem sido um grande companheiro de muitas horas de treino e aprendizagem na busca e salvamento.

Para qualquer dúvida ou partilha de conhecimentos, podem usar o meu mail, tentarei responder o mais prontamente possível. ricorocha708@hotmail.com